Portugal

I’m back! Minha história até aqui – Parte 2

imback2.1.jpgAntes de ler este post, dê uma olhadinha na Parte 1!

Cheguei em Portugal com uma mala enorme de sonhos e metas. Tinha certeza de que tinha encontrado meu pedacinho na Europa. Mas nem sempre a vida real é como idealizamos e Portugal tinha, sim, muitos defeitos. Eu costumo dizer que Portugal é o Brasil da Europa ou vice-versa, com exceção dos assaltos e assim… Ao longo da minha estadia lá, vi muitos portugueses que nunca tinham nem pisado no Brasil dizer o quanto o Brasil era violento, mas Portugal é um dos países com o maior número de casos de violência doméstica da Europa… Mas, cada um enxerga o mundo através da sua lente cultural… E eu estava ali e não faia ideia do que estava por vir…

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Primeiro passeio – Set 2014

Aluguei meu ap ainda do Brasil. Dividi os primeiros meses com uma outra brasileira que estava fazendo o mesmo mestrado que eu. Apesar dela ser uma pessoa incrível, não combinávamos em termos de organização e divisão de espaço e ela acabou se mudando em novembro. Esse foi um bom acontecimento, para falar a verdade, eu já estava empregada, esperando sair minha autorização de trabalho e tinha dinheiro suficiente para arcar com todas as despesas sozinha. Eu estava na minha melhor fase, curtindo meu apartamento no centro do Porto, com as aulas a todo vapor, um emprego legal, criando meu círculo de amigos na faculdade, morando na cidade que eu achava que era perfeita e com meu corpo em ótima forma. Cheguei à Portugal pesando 73kg e em novembro eu já estava na sonhada casa dos 60, pesando 67kg (o mais magra que já tinha sido em toda a minha vida até então!). Eu sempre quis manter o blog e tenho vários rascunhos inacabados de posts daquela época, mas que (claro) nunca cheguei a publicar. Estava curtindo muito todas aquelas conquistas, me sentia realizada, feliz e com a autoestima lá em cima! Aquilo era a realização de vários sonhos de vida e acabava sempre deixando os posts para depois. Estava vivendo intensamente aquele sonho. E foi então, que tudo começou a desandar…

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Encontro com amigos do mestrado – Dez 2014

Existe uma metáfora muito interessante que diz que a vida é como uma montanha-russa, com momentos altos e momentos baixos e cheia de diferentes emoções. Pois, eu estava no pico da montanha e não imaginava que havia uma queda tão íngreme logo ali na frente, depois da curva.

Depois de alguns meses e já mais ambientada, conheci um rapaz português. Alto, bonito, simpático e muito, muito, preconceituoso (é claro que nem todos são assim, essa foi apenas uma história triste). O “relacionamento” durou 5 meses e foi horrível. Ele desconfiava de tudo o que eu dizia, de tudo que eu fazia e foi um perrengue muito brabo. Uma vez, brigamos porque, em uma festa, agradeci um amigo dele por nos ter oferecido dois ingressos para ver o FC Porto no icônico Estádio do Dragão (ponto turístico indispensável para amantes de futebol). O motivo da briga: eu estava “muito simpática e sorrindo demais”.

Em pouco tempo, o relacionamento se mostrou abusivo, apesar dele nunca ter me agredido fisicamente. Ele me seguia, me ligava a cada minuto e a qualquer oportunidade vasculhava meu celular. Brigávamos se eu não atendia o celular, se eu usasse decote… Uma vez ele puxou a minha blusa até o umbigo no meio de uma roda de samba, porque (sic) “se eu queria usar decote, que mostrasse logo as mamas” e, claro, brigamos de novo. Mas, como em todo relacionamento abusivo, ele sempre pedia desculpas e dava um jeito de fazer aquilo parecer a minha culpa. Ele sempre conseguia me fazer sentir mal.

Eu estava morando sozinha em outro país, sem família ou amigos que me conheciam de verdade… Eu sentia falta da minha gatinha, que tinha ficado no Brasil, das pessoas que dividiam ap comigo no Rio (minha segunda família), do convívio fácil e leve com meus amigos, dos meus pais, meu irmão… Eu sabia que imigrar não era fácil, mas não imaginei que seria tão difícil. Um dia, depois de tanto comentar que queria adotar um gato, ele me ligou dizendo que havia encontrado uma caixa no lixo com quatro gatinhos filhotes! Que horrível! Depois dos primeiros cuidados no hospital veterinário, ele levou os quatro gatinhos para que eu escolhesse o meu novo compaheirinho.

Essa é uma das lembranças mais incríveis que tenho daquela época. Ele abriu a gaiolinha com todos os gatinhos na minha sala, eram três malhados e um preto com olhos brilhantes e longos bigodes brancos. Eu coloquei a mão dentro da gaiola para que eles se ambientassem comigo e uma patinha preta tocou a palma da minha mão. Naquele momento, eu fui escolhida. Peguei aquela bolinha de pelos do tamanho da minha mão no colo e ele se aninhou no meu peito… Ele ganhou o nome do primeiro rei de Portugal. Ali nascia um laço que se mantém até hoje. Neste momento, o Afonso entrava na minha vida.

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Afonso com 5 anos e meio – Londres 2020

Nesta altura, eu já estava trabalhando e meu trabalho era na cidade de Espinho (sim, outra cidade, mas Portugal é minúsculo, a distância do meu trabalho para casa era de 30 minutos de trem). Um dia uma amiga foi me buscar no trabalho e ficamos perambulando pelas ruas da cidade, tomamos café numa das padarias maravilhosas que haviam lá e ficamos conversando na praia. Acabamos perdendo o horário do trem que eu sempre pegava e pegamos o trem do horário seguinte (mais ou menos 35 min. de diferença). Neste dia, eu e ele tivemos uma super briga porque eu não estava na estação no horário habitual. A preocupação dele não era ter acontecido alguma coisa comigo, a preocupação dele (pasmem!) era que eu o estivesse traindo com alguém. Ele dizia que tudo era culpa minha, que minha cultura era isso e aquilo e sempre citava “as mulheres de Bragança” como exemplo para as desconfianças dele. Para quem não conhece, vou explicar essa história rapidamente:

Há alguns anos (não lembro bem quantos) abriram um prostíbulo na cidade de Bragança e todas as prostitutas eram estrangeiras (em grande maioria, Brasileiras). A cidade estava convivendo muito bem com aquilo, porque as meninas do prostíbulo começaram a investir muito no comercio local, comprando roupas, maquiagem e produtos femininos, os salões e centros de estética estavam sempre cheios e o comércio prosperava. O prostíbulo começou a atrair gente de fora, o turismo aumentou e todos estavam “ganhando”. Até que os homens da região começaram a abandonar suas esposas para ficarem com as prostitutas e, claro, o que era uma benção para a cidade, rapidamente se transformou em uma maldição. Todas as mulheres que foram abandonadas por seus parceiros (ao invés de culpa-los) culpavam as meninas de os terem “roubado” delas. Isso chamou a atenção da mídia e o caso ficou conhecido no país inteiro. No fim das contas, os maridos foram embora, levando consigo seus novos amores estrangeiros, e as 5 ou 6 esposas abandonadas ficaram conhecidas como “as mulheres de Bragança”.

E o que eu: uma estudante de mestrado, trabalhando na minha área (o que é raro mesmo para os portugueses), com visto tirado do Brasil, permissão legal para ir e vir, arcando com minhas próprias despesas, sem depender de ninguém (graças à Deus) tenho a ver com essa história?! Até hoje não sei. E acho que nunca entenderei.

Mas era isso que eu sempre ouvia nas nossas brigas. O ponto final foi quando, em uma briga, ele me disse que não conseguia confiar em mim, por mais que tentasse, PORQUE EU ERA BRASILEIRA. Meu mundo foi ao chão. Como era possível, depois de tudo que eu batalhei para conquistar o que eu tinha naquele momento. Depois de todas as noites sem dormir, estudando até a exaustão, poupando tudo que eu ganhava, todos os planejamentos… Tudo. Nem o “corpo de brasileira” que eu tinha me foi dado de graça! Foi muito controle, lágrimas, exercícios, tabelinha de comida, e calorias… Eu era muito mais do que uma simples nacionalidade. Aquilo foi um “soco no meu estomago”. Terminamos.

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Festa de halloween – Out 2014

Nesta altura eu já frequentava a casa da “Lu” (vou chama-la assim para preservar sua identidade), uma menina brasileira bem boêmia que sublocava os quartos do seu apartamento para intercambistas. Inclusive, a conheci através de uma colega de faculdade que também estava cursando o mestrado em Portugal e morava em um dos quartos. O ap da Lu era espaçoso, estava sempre cheio e tinha aquela vibe de república estudantil que eu bem conhecia do Brasil. Também era bem localizado, ficava bem perto da minha academia (nesta época eu já pesava 65kg (o menor peso que já tive na vida!) e do meu próprio ap e acabamos fazendo muitos jantares e convívios lá.

Já era dezembro e fui convidada para o jantar de natal na casa da Lu e nesse jantar conheci a “Joana”, uma menina muito simpática, loira e com profundos olhos azuis.

(Continua…)

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